MERCADO DE CAPITAIS

Terra Brasis inova com primeiro ILS brasileiro

Investimento ligado aos seguros listado nas Bermudas, com cobertura de US$ 5 milhões, protege exposição catastrófica da empresa na América Latina

29/03/2017 – 17:21
Atualizado em 27/04/2017 – 06:32
Rodrigo Botti, diretor da Terra Brasis
Rodrigo Botti, diretor da Terra Brasis.

A resseguradora Terra Brasis patrocinou em fevereiro a emissão de um instrumento ligado aos seguros, ou ILS, em uma iniciativa que visa ajudar a fomentar o desenvolvimento de um mercado de capitais para risco seguráveis no Brasil.

A emissão do título, no valor de US$ 5 milhões, marca a estreia de uma resseguradora brasileira neste tipo de operação, de acordo com Rodrigo Botti, CFO da empresa.

O Alpha Terra Validus I, listado nas Bermudas, cobre a exposição a riscos de danos a bens ligados a catástrofes naturais da Terra Brasis na América Latina.

A cobertura abrange todo o continente, mas as maiores exposições da empresa se encontram fora do Brasil, especialmente em países como Peru e Colômbia. A Terra Brasis abriu recentemente um escritório de representação na capital colombiana, Bogotá.

O objetivo da empresa, além de obter um grau extra de proteção para suas crescentes atividades internacionais, é fomentar o debate sobre o desenvolvimento de um mercado ILS no Brasil, afirmou Botti em entrevista a Risco Seguro Brasil.

“Mais do que qualquer coisa, nosso objetivo foi aumentar a percepção desta tecnologia no mercado latino-americano”, disse o executivo. “Quisemos mostrar que é possível.”

Para fomentar este mercado no Brasil, entretanto, é preciso que ocorram mudanças na legislação relacionada aos seguros, uma vez que a lei brasileira proíbe os subscritores de transferir riscos aos mercados de capitais.

Para viabilizar a operação do Alpha Terra Validus I, a Terra Brasis teve que primeiro transferir os riscos para uma resseguradora suíça registrada no Brasil, a Validus Re.

Foi a empresa suíça que, em seguida, realizou a operação com os mercados de capitais, através da White Rock Insurance, uma unidade da Aon nas Bermudas. O título foi negociado integralmente com a AlphaCat Managers, uma gestora de fundos especializada no mercado de ILS que pertence ao mesmo grupo da Validus Re.

Demanda em alta

Os produtos ILS (Insurance-Linked Securities), grupo que inclui os chamados cat bonds, permitem que subscritores transfiram riscos tomados de seus clientes aos mercados de capitais em troca de um retorno sobre o investimento feito.

Estes produtos têm tido forte demanda por parte de hedge funds, fundos de pensão e outros investidores institucionais devido à sua baixa correlação com outros tipos de investimentos, como ações e renda fixa.

No ano passado, de acordo com a resseguradora Swiss Re, o volume de novas emissões de cat bonds chegou a US$ 5,9 bilhões no mercado global de produtos ILS. Foi um número inferior ao de 2015, mas superior ao volume de emissões anteriores que atingiram sua maturidade em 2016. Dessa maneira, o estoque de cat bonds manteve-se estável em mais de US$ 24 bilhões, segundo a empresa suíça. Todo o mercado de produtos ILS chega a US$ 75 bilhões.

Neste ano, as emissões de novos cat bonds devem atingir US$ 8 bilhões, de acordo com estimativas preliminares da Aon Securities.

Para seguradoras e resseguradoras, além de alguns emissores privados e ligados a agências governamentais, a vantagem dos produtos ILS é que eles lhes ajudam a reduzir a exposição a riscos de grande intensidade como terremotos e furacões.

Os exemplos mais conhecidos são os chamados cat bonds emitidos nos Estados Unidos para cobrir excessos de perdas causadas, por exemplo, pelos furacões que costumam atingir a Flórida com alguma frequência.

Com isso, os subscritores conseguem também reduzir suas necessidades de formar reservas de capital para fins regulatório, liberando capacidade de cobertura e incrementando sua lucratividade.

Legislação

No Brasil, porém, o mercado ILS ainda não decolou. Um dos motivos é a baixa penetração dos seguros no país, além de sua reduzida exposição aos riscos catastróficos tradicionais do mercado, como os furacões e terremotos.

Mas o mercado está se expandindo para outras áreas, como longevidade e até mesmo riscos operacionais, e Botti acredita que nesta diversificação podem estar as oportunidades para potenciais emissores brasileiros.

“Eu vejo potencial no seguro agrícola, no seguro garantia, riscos de engenharia, longevidade, toda a parte da saúde”, disse o executivo. “Há uma série de produtos que podem ser utilizados para essas operações.”

O mercado tem mostrado apetite por riscos não tradicionais, como mostrou uma bem-sucedida operação feita pela seguradora italiana Generali no ano passado. A empresa transferiu US$ 255 milhões através do Horse Capital, um título lastrado em sua exposição a riscos de responsabilidade civil de automóvel em vários países europeus.

O interesse por diversificação também inclui novos países. Tradicionalmente, os mercados de produtos ILS são os Estados Unidos, a Europa e o Japão, com algumas emissões feitas por cedentes australianos e neozelandeses. Em 2015, porém, a China Re inaugurou a participação do mercado chinês com o título Panda Re.

Na América Latina, há emissões feitas com riscos localizados México e no Caribe, mas sempre com o apoio de instituições multilaterais como o Banco Mundial, além de algumas colocações privadas.

Para que as empresas brasileiras possam desfrutar de forma mais intensa desta fonte de capital, porém, é necessário que o governo aceite fazer mudanças na legislação, observou Botti. Negociações já estão sendo realizadas neste sentido.

“Estamos trabalhando com as autoridades brasileiras para desenvolver este produto onshore no Brasil”, disse o executivo. “Não vai ser um trabalho rápido, mas é algo que queremos desenvolver pensando no longo prazo.”