CATÁSTROFES

Mercado alternativo para riscos tem apetite, mas ainda não decolou na AL

Novas regras de capital e apoio do Banco Mundial podem ajudar setor; baixa penetração de seguros e falta de dados confiáveis são obstáculo

03/05/2016 – 09:48
Atualizado em 16/05/2016 – 10:16
Usina Hidrelétrica de Sobradinho (BA

Usina Hidrelétrica de Sobradinho (BA) enfrentou seca em 2015: proteção viável no mercado de capitais. (Foto: Agência Brasil)

Os mercados de capitais têm mostrado um apetite crescente por investimentos ligados ao mercado de seguros. Veículos como os cat bonds e os chamados ILS oferecem alternativas à cobertura das perdas econômicas resultantes de diversos riscos ligados a catástrofes naturais.

A América Latina é uma região bastante exposta a esse tipo de problema, com terremotos, furacões, granizo e outros eventos que geram perdas consideráveis às economias regionais. Mesmo o Brasil sofre com enchentes e secas devastadoras. Na verdade, é um dos países cuja população está mais exposta a catástrofes naturais.

Ainda assim, o mercado de investimentos financeiros ligados aos seguros ainda não decolou na região.

Há exceções, como a bem-sucedida experiência do México com a emissão de cat bonds, que está sendo feita na América Central com o apoio do Banco Mundial, além de alguns raros contratos individuais fechados nos últimos anos.

Segundo especialistas, no entanto, há obstáculos para a implementação deste mercado na região. Eles incluem a baixa penetração da indústria de seguro, o longo mercado brando, a falta de informações estatísticas confiáveis e o desconhecimento e desinteresse, por parte das empresas seguradoras, a respeito de formas alternativas de gestão de capital de solvência.

“Temos tido discussões com clientes latino-americanos já há algum tempo sobre a possibilidade de utilizar alternativas do mercados de capital como soluções para transferir riscos, mas ainda não chegamos lá”, disse Enrique Venegas, vice-presidente sênior para a América Latina e Caribe na corretora de ressseguros Willis Re. “Em algum momento vai acontecer; faz muito sentido para algumas empresas.”

Incentivos

Alguns fatores indicam que há espaço para o crescimento do setor na América Latina. Por exemplo, o fato de que vários países, incluindo o Brasil, estão implementando sistemas de supervisão e solvência baseados no risco assumido pelas seguradoras.

Tais sistemas se baseiam em modelos que incentivam as empresas a retirar algumas exposições de risco de seus balanços. A transferência de riscos catastróficos localizados por meio de instrumentos ILS é uma das maneiras de obter esse resultado.

Outros fatores são a disseminação de modelos de avaliação de riscos catastróficos mais sofisticados e a implementação de tecnologias paramétricas na região. Não é por acaso que o México, onde os modelos catastróficos estão mais avançados, foi o pioneiro do lançamento de cat bonds na América Latina.

O cat bond mexicano é acionado por critérios paramétricos, e não pela avaliação objetiva das perdas. Uma outra experiência realizada no Uruguai também utilizou conceitos paramétricos para determinar quando a cobertura seria ativada. Neste caso, o emissor era uma empresa energética, e o risco coberto era o da falta de chuva levar à interrupção da produção de eletricidade.

Os mercados latino-americanos também sofrem com uma escassez de coberturas catastróficas e falta de dinheiro em geral para promover trabalhos de reconstrução, o que levou o governo do Equador a aumentar impostos logo após um terremoto ter atingido o país em abril.

Por esse motivo, o Banco Mundial está tentando impulsionar o mercado, provendo suporte técnico tanto à já consolidada operação mexicana, que começou em 2006 e vem sendo renovada desde então, quanto às novas experiências caribenha e uruguaia.

O objetivo de longo prazo da organização, segundo fontes, é criar um mercado de investimentos ligados aos seguros consolidado na região, com o fim de preparar melhor os países latino-americanos para enfrentar eventos catastróficos.

Também há sinais de que as empresas do setor começam a ter maior interesse no tema. Uma das demandas dos defensores da criação de um polo de resseguros no Brasil é adotar regras que facilitem a introdução de instrumentos de transferência de riscos aos mercados de capitais.

“(…) Para ser competitivo, um polo de resseguro no Brasil terá que desenvolver a tecnologia de transferência de riscos para o mercado de capitais”, diz o paper preparado pela Fenaber, a federação das resseguradoras do país, e seus sócios na iniciativa. “Esta tecnologia deve contemplar tanto a transferência de risco para o mercado de capitais internacionais (i.e. instrumentos de investimento offshore, eurobonds, cat bonds), quanto para o mercado de capitais nacional (títulos negociados onshore, no Brasil).”

Obstáculos

Segundo Asha Attoh-Okine, um analista financeiro sênior na agência de ratings AM Best, o desenvolvimento do setor esbarra em características do setor como o chamado lapso de proteção, que é a diferença entre as perdas econômicas e as perdas asseguradas em um evento catastrófico.

“Devido ao baixo nível de penetração, o desenvolvimento do mercado ILS segue sendo uma ilusão [na América Latina]”, disse ele. “Iniciativas de uma série de organizações internacionais e grandes resseguradoras estão ajudando neste sentido.”

Outro fator que inibe o setor é o longo mercado brando de seguros e resseguros, que não está incentivando as seguradoras a buscar alternativas de transferência de riscos, segundo Eduardo Recinos, vice-presidente sênior para Seguros na América Latina da agência de ratings Fitch.

“Na América Latina, as empresas de seguros estão tirando muito proveito da competição entre resseguradores tradicionais”, afirmou ele.

Recinos observou ainda que a série de fusões e aquisições que vem ocorrendo no mercado está colaborando para reduzir a necessidade de novas fontes de capacidade, uma vez que as companhias adquiridas são integradas aos programas de resseguro das compradoras.

Além disso há o fato de que, apesar de progressos feitos nos últimos anos, ainda faltam dados e modelos confiáveis sobre a exposição de riscos na região, um problema sério, já que investidores procuram se informar o máximo possível sobre os riscos que estão tomando.

“A disponibilidade de informações confiáveis sobre riscos catastróficos é fundamental para o desenvolvimento de mercados ILS, e isso deve continuar a ser um obstáculo na região”, disse Recinos.

Gestão de capital

Para Venegas, um outro importante freio ao desenvolvimento do mercado de ILS na América Latina é o raciocínio tradicionalmente utilizado pelas seguradoras para comprar resseguros na região.

Segundo esse argumento, os responsáveis pelas transferências ao mercado de resseguro seguem sem mostrar muito interesse por soluções criativas para a diversificação do portfólio de riscos das empresas. Mas isso tende a mudar na medida em que novas gerações de executivos assumem posições de destaque no setor.

“Gente com uma perspectiva mais arejada sobre como o resseguro pode ter um papel importante nas estratégias de gestão de capital de suas empresas estão chegando a posições em que serão capazes de avaliar a possibilidade de incorporar alternativas do mercado de capital como parte do arsenal de ferramentas de gestão de riscos”, disse Venegas.

Especialistas também veem dificuldades na hora de chegar a valores competitivos, tanto para emissores quanto para investidores, para produtos ILS ligados a riscos catastróficos na América Latina. Mas corretores consultados por Risco Seguro Brasil afirmaram que já é possível tentar estruturar transações nas atuais condições de mercado.

Attoh-Okine, porém, vê poucas possibilidades de que entidades do setor privado, por exemplo, comecem a utilizar esses instrumentos na América Latina no curto prazo.