RELAÇÕES PERIGOSAS

Parceiros são dor-de-cabeça para programas anticorrupção

Segundo Kroll, risco representado por terceiros lidera preocupações nas empresas, com aperto regulatório em segundo lugar

22/03/2018 – 10:56
Atualizado em 20/04/2018 – 10:39

As atividades de parceiros comerciais constituem o principal risco para os sistemas de prevenção à corrupção implementados pelas empresas, de acordo com uma pesquisa internacional da consultoria Kroll.

Responsáveis por programas de compliance entrevistados pela consultoria expressaram especial preocupação com os danos às reputações de suas empresas que podem resultar do envolvimento de parceiros comerciais com irregularidades.

Grande parte dos entrevistados também afirmou que o aperto regulatório imposto em vários países que reforçaram ou estão reforçando suas legislações anticorrupção são o principal motivo por que os riscos de compliance estão em alta.

Por outro lado, a maioria dos entrevistados disse temer que suas empresas não estão suficientemente preparadas para evitar fazer negócios com parceiros comerciais que acabem se envolvendo em corrupção e pagamento de propina.

A Kroll chegou a essas conclusões com base em 448 respostas a questionários enviados a empresas internacionais, das quais 18% estão no Brasil.

Relações perigosas

Um total de 35% dos entrevistados disse que as possíveis violações a leis anticorrupção por parte de terceiros são o maior risco enfrentado por suas empresas nessa área.

O número é um pouco menor do que os 40% registrados em 2017, e a diferença se explica por um aumento na proporção de companhias que colocaram o aperto regulatório global no topo da lista.

No ano passado, uma regulamentação anticorrupção mais forte foi citada por 14% dos entrevistados como o principal risco, comparado com 18% na pesquisa de 2018.

O risco representado pelas atividades de terceiros também é refletido pela quantidade de executivos que disse não estar confiante na habilidade de suas empresas em identificar os potenciais parceiros comerciais que podem incorrer em práticas ilícitas, sujando seu nome no processo. Esta resposta foi escolhida por mais da metade dos participantes.

A Kroll ressalta no estudo que é importante realizar um trabalho de due diligence antes de engajar relações comerciais com uma outra empresa ou profissionais que prestam serviços de maneira independente.

Mas mesmo isso pode ser insuficiente para evitar dor-de-cabeça. Das empresas participantes, 58% afirmaram que tiveram problemas com casos de corrupção por parte de parceiros mesmo após eles terem sido aprovados por seu processo de due diligence.

Por esse motivo, outra conclusão do estudo é que não só é preciso saber com quem se está fazendo negócios, mas também monitorar periodicamente as práticas de seus parceiros.

Três de cada quatro participantes afirmaram monitorar todos ou parte de seus parceiros comerciais em temas de anticorrupção.

Metade dos entrevistados que tiveram problemas de atividades corruptas por parte de parceiros disse que as irregularidades foram identificadas através do monitoramento pós-due diligence. Outros 34%, através de processos de due diligence promovidos depois que já estavam trabalhando com as empresas envolvidas.

Estruturas nebulosas

Uma preocupação crescente na área de due diligence se refere às estruturas societárias de fornecedores e outros parceiros comerciais.

No ano passado, as estruturas societárias opacas ocupavam o quinto lugar entre os principais motivos porque parceiros comerciais caíam na malha fina do processo de due diligence das empresas. Neste ano, elas chegaram à terceira colocação, atrás apenas da má reputação e dos conflitos de interesses dos potenciais parceiros.

Segundo a Kroll, vários dos entrevistados afirmaram que muitas vezes não sentem confiança nas informações prestadas por um parceiro comercial a respeito de quem são os detentores finais do capital da companhia.

Oitenta e quatro por cento disse que busca estas informações, mas a Kroll nota que é complicado entender de forma segura quem realmente controla uma empresa internacional.

O escândalo Panamá Papers e as controvérsias ligadas ao controle da J&F são casos que ajudam a ilustrar este ponto levando pelos entrevistados. Para a consultoria, novidades como o open banking e os pagamentos via moedas virtuais tornam essa tarefa ainda mais complicada.

Outra conclusão ressaltada pela Kroll foi a de que cada vez mais executivos estão preocupados com as consequências pessoais que podem sofrer caso suas empresas se vejam envolvidas em casos de corrupção.

A consultoria notou que, em países como os Estados Unidos, um número cada vez maior de autoridades regulatórias está fazendo mais esforços na hora de responsabilizar executivos pelas irregularidades, mesmo cometidas por parceiros, ao invés de simplesmente punir as empresas com vultosas multas.