RISCO EMERGENTE

Novo estilo de terrorismo exige resposta da indústria de seguros

Demanda aumenta por parte das empresas por apólices que cobrem interrupção de negócios sem dano patrimonial direto

25/05/2017 – 05:36
Atualizado em 29/06/2017 – 08:18
Imagem da TV BBC mostra interior de estádio de Manchester após ataque. (Foto: Reprodução)

Imagem da TV BBC mostra interior de estádio de Manchester após ataque. (Foto: Reprodução)

O ataque terrorista que matou 22 pessoas e feriu outras 64 em um show de Ariana Grande em Manchester, no Reino Unido, ilustra a evolução do terrorismo global e os desafios criados para o mercado de seguros.

Para os serviços de segurança, ações como a do dia 22 de maio, quando um britânico de descendência líbia explodiu uma bomba caseira na saída do concerto, criam sérios problemas devido à dificuldade em rastrear potenciais terroristas que possuem ligações aparentemente tênues com os grupos em nome dos quais realizam os ataques. No caso de Manchester, o Estado Islâmico reivindicou o atentado.

Em outros tempos, grupos terroristas como o ETA ou o IRA, ou ainda a Al Qaeda, buscavam alvos simbólicos cuja destruição representava um atentado contra a presença do Estado, uma religião ou o poder dominante. Foi o caso das torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, destruídas pela Al Qaeda em 2001.

Mas os mais recentes ataques têm focado na destruição aleatória de vidas humanas com o objetivo de aterrorizar a opinião pública, fomentando pressões para que os governos ocidentais deixem de atuar em lugares como a Síria e o Iraque.

São ataques em que os responsáveis utilizam armas de baixa tecnologia, como pistolas, bombas caseiras como as de Manchester ou, a exemplo do que ocorreu em Nice e Berlim no ano passado, até mesmo caminhões.

Novas coberturas

Para a indústria de seguros, ataques como o de Manchester têm gerado uma demanda por novas coberturas que necessita ser atendida.

É o caso, por exemplo, da cobertura por lucro cessante sem dano físico ao patrimônio (non physical damage business interruption, em inglês), que se tornou nos últimos anos um motivo de queixas por parte de gestores de riscos de grandes multinacionais.

Tais coberturas protegem o faturamento de uma empresa quando seu negócio sofre com um evento que aconteceu fora de suas propriedades.

Os ataques terroristas dos últimos anos provêm exemplos claros deste risco. Em 2015, Paris foi alvo de dois chocantes ataques terroristas (contra o semanário Charlie Hebdo e a discoteca Bataclan) que deixaram muitos mortos, porém poucas perdas econômicas diretas na forma de destruição de patrimônio.

Mas a sequência de ataques também assustou potenciais visitantes em uma cidade em que o turismo é uma importante atividade econômica. No ano passado, de acordo com a autoridade parisiense de turismo, houve 1,5 milhão de visitantes a menos na capital francesa do que em 2015. A perda da renda turística de Paris chegou a €1,3 bilhão.

Como a maioria das empresas que sofreu esta perda de faturamento não foi afetada diretamente pelos ataques, se elas tinham coberturas tradicionais de risco de terrorismo, que tendem a incluir danos diretos ao patrimônio e lucros cessantes decorrentes desses mesmos danos, certamente não receberam nenhum tipo de indenização.

“As coberturas tradicionais de danos patrimonais e lucro cessante ligadas a terrorismo exigem danos físicos (à propriedade do segurado) para que sejam acionadas”, disse Chris Parker, subscritor de Terrorismo da seguradora Beazley, em Londres. “Este gatilho esteve ausente em alguns dos ataques terroristas mais recentes, mas clientes ainda assim sofreram com a interrupção de seus negócios e perdas financeiras.”

“O impacto de interrupção de negócios é, com frequência, onde as maiores perdas se encontram quando há um ataque (terrorista)”, disse Scott Bolton, diretor da área de Violência Política da Aon, em Londres.

Não só terrorismo

O terrorismo proporciona um exemplo gráfico da necessidade das coberturas de lucro cessante sem dano físico. Mas não é o único caso em que este risco pode se materializar. Catástrofes naturais, epidemias, ataques cibernéticos e outros sinistros podem afetar a atividade das empresas, ainda que não diretamente.

Para atender esta crescente demanda, os seguradores especializados estão desenvolvidos produtos que podem ser adaptados aos riscos mais importantes que podem afetar indiretamente as empresas.

“A maioria dos clientes que hoje compra apólices patrimoniais e de seguro contra terrorismo quer um elemento de interrupção de negócios sem danos físicos”, disse Russell Kennedy, que lidera a divisão de Guerra e Terrorismo na seguradora Brit, em Londres, que é especializada em riscos especiais. “Temos visto clientes que adquirem grandes sublimites ou mesmo apólices específicas, cobrindo valores que chegam a superar US$ 200 milhões.”

Alguns exemplos, dentro do campo de terrorismo, são as coberturas de Loss of Attraction, que protege a empresa no caso de perder clientes por um evento que aconteceu em um lugar distante, e Active Shooter, ativada quando uma companhia tem de interromper suas atividades devido à ação de um atacante que, armado, causa mortos ou feridos, mas não destruição física significativa à propriedade.

No caso da primeira, Kennedy cita o exemplo de parques de diversões que, muitas vezes, dependem de aeroportos para que grande parte de seus visitantes cheguem às instalações.

Ao negociar uma apólice de seguros, a empresa que administra um parque pode determinar um número de aeroportos que são vitais para as suas atividades. Caso esses aeroportos sejam fechados devido a um ataque terrorista, a apólice é acionada, já que o fluxo de visitantes vai cair como consequência do evento.

Os compradores podem escolher aeroportos localizados até centenas de quilômetros de distância como lugares-chave para seu negócio. Os critérios para definições de prêmios e indenizações são negociados com as seguradoras.

Para Kennedy, a demanda por este tipo de solução tende a crescer, e o mercado terá de bolar cada vez mais soluções criativas para o risco.

“Estamos sendo informados pelas agências de inteligência e analistas de risco que a ameaça (terrorista) está aumentando, e não diminuindo”, observou.