AMEAÇA GLOBAL

Universidade de Cambridge alerta para risco de grande choque

Geopolítica e ameaças tecnológicas estão entre fatores que podem originar eventos com perdas superiores a US$ 1 trilhão

12/12/2016 – 10:27
Atualizado em 22/12/2016 – 07:34

O risco de que a economia global sofra um grande choque está mais elevado, alertaram pesquisadores da Universidade de Cambridge.

Um relatório do Centro de Estudos sobre Riscos (CCRS) da universidade britânica atribui este aumento do nível de riscos a fatores geopolíticos, a intensificação das ameaças tecnológicas e a maior probabilidade da ocorrência de alguns tipos de crises financeiras.

O alerta foi feito durante a divulgação do Índice Global de Riscos 2017, preparado pela universidade, que mede a possibilidade de que as 300 maiores cidades do mundo sofram eventos capazes de gerar perdas financeiras superiores a US$ 1 trilhão.

São Paulo aparece no ranking como a 17ª no ranking das cidades expostas a maior potencial de perdas causados pelos riscos investigados pelos pesquisadores. Na versão anterior do ranking, a capital paulista estava na 16ª colocação.

A universidade estima que São Paulo está exposta a perdas financeiras equivalentes a US$ 7,09 bilhões no curto prazo que podem ser causadas pelos eventos analisados, que incluem desde um crash do mercado financeiro e ataques terroristas até catástrofes naturais como enchentes e secas.

As líderes do ranking são Taipei, com um potencial de perdas de US$ 20,57 bilhões, e Tóquio, com US$ 20,44 bilhões.

Cenários

A elaboração do ranking passa pela simulação de cenários catastróficos causados por uma série de eventos tanto financeiros como não-financeiros.

Os autores projetaram seus cenários em um período de dez anos, com ênfase no período entre 2017 e 2020. Eles afirmam que as perdas esperadas causadas pelos 22 riscos analisados chegam a uma média ponderada de 1,48% do PIB mundial em dez anos, e 1,51% no próximo triênio.

Isso significa uma perda financeira esperada de US$ 1,17 trilhão só em 2017, segundo Andrew Coburn, vice-presidente da empresa de modelação de risco RMS, que faz parte do CCSR.

Os cientistas explicam que são cenários extremos, com reduzida chance de ocorrer, mas que merecem ser levados em conta devido à sua extraordinária intensidade.

Por exemplo, um dos cenários elaborados prevê uma crise da dívida soberana na América do Sul, com origem no Brasil. Os cientistas trabalham como uma probabilidade de 3% a 4% por ano de que o país sofra uma crise de pagamento da dívida.

Outros incluem a possibilidade de um calote do governo americano (como insinuado, e logo negado, por Donald Trump durante a campanha eleitoral), um conflito bélico entre China e Japão, uma nova guerra na península coreana, um grande ataque cibernético contra infraestruturas críticas ou uma pandemia causada por um vírus da gripe geneticamente modificado.

Ainda que os cenários em questão tenham pouca probabilidade de se materializar, episódios recentes como a eleição de Trump nos EUA e o chamado Brexit mostram que é preciso levar em consideração mesmo os riscos considerados de pequena probabilidade.

O CCRS estima, por exemplo, que um conflito entre a China e o Japão custaria US$ 17 trilhões à economia global, e um crash do mercado imobiliário global de US$ 13 trilhões. Uma pandemia centrada em São Paulo poderia ter um custo de até US$ 7 trilhões. Para comparação, os autores estimam que a crise financeira global iniciada em 2008 causou US$ 18 trilhões em perdas financeiras.

Principais riscos

No campo financeiro, os autores ressaltam a possibilidade de crises da dívida soberana, uma vez que vários países tiveram suas avaliações de riscos reduzidas pelas agências de  rating de crédito nos últimos anos.

Por outro lado, consideram que a possibilidade de contágio global de uma crise bancária se reduziu após as reformas regulatórias realizadas após a crise global iniciada em 2008.

O risco geopolítico, por sua vez, está claramente em alta, até porque os tradicionais enfrentamentos bélicos estão dando lugar, e quem sabe sendo antecipados, por choques entre países no mundo virtual. Os autores afirmam que o risco de um conflito militar entre dois grandes países segue sendo reduzido, mas está mais presente agora do que em anos anteriores.

Além disso, eles afirmam que o risco de terrorismo tende a se recrudescer como resultado das perdas militares sofridas pelo Estado Islâmico nos últimos meses.

No curto prazo, uma ameaça bastante presente é composta pelos ataques cibernéticos, que chegaram a níveis recordes no último ano. Os autores destacam a ação de hackers contra a rede de distribuição de energia elétrica da Ucrânia, em dezembro de 2015, como um exemplo do que pode estar vindo por aí.

O tema do risco cibernético tem o agravante da imprevisibilidade. Com a tecnologia utilizada por hackers em permanente evolução, é difícil prever que padrão este risco deve assumir nos próximos anos.

Os autores também afirmam que o impacto de vários riscos tende a ser ampliado hoje em dia pela elevada interconexão entre as economias e as empresas.

Clique aqui para acessar o estudo em inglês.

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