TRANSPORTES

Sinistros em navios caem, mas setor enfrenta novos desafios

Relatório da AGCS mostra redução de 50% em incidentes desde 2007, mas alerta que melhoria pode ter a ver com desaceleração do comércio global

22/06/2017 – 08:50
Atualizado em 27/07/2017 – 12:09
Ferry boat São Gabriel

O ferry boat São Gabriel, que liga Icoaraci (PA) e Marajó, começou a operar em junho. (Cláudio Santos – Agência Pará)

O número de sinistros envolvendo embarcações com mais de 100 toneladas segue em declínio em todo o mundo, chegando em 2016 à metade dos incidentes observados em 2007.

De acordo com relatório divulgado pela Allianz Global Corporate and Specialty, no ano passado foram registrados 85 sinistros, o nível mais baixo dos últimos dez anos. Em 2007, o total fora de 171.

O total de 2016 também foi 29% inferior à média da última década, que chegou a 119 sinistros por ano. Os motivos desta melhora, segundo a AGCS, incluem uma melhoria na regulamentação do setor e a consolidação de uma cultura de segurança mais firme entre as empresas do ramo.

Ao mesmo tempo, o número de mortes ocorridas no setor de transportes marítimos apresentou uma queda de 4% no ano passado, chegando a 2.611 fatalidades. Danos ao maquinário dos navios e falhas dos motores são os principais responsáveis por estas mores, segundo o relatório.

Entre os tipos de navio, os ferries que transportam passageiros e automóveis estão os que preocupam os profissionais de segurança, especialmente em regiões afetadas por ciclones e tufões, como a Ásia.

Desafio econômico

Mas a AGCS alerta que outros fatores menos positivos também podem ter reduzido os níveis de sinistralidade, especialmente a redução do volume do comércio global redução do volume do comércio global observado nos últimos anos.

Por esse mesmo motivo, o setor se encontra sob forte pressão econômica, enfrentando a queda nas tarifas de transporte em um período em que a capacidade dos armadores é a mais alta jamais vista.

Os problemas vividos pela indústria de transporte marítimo foram ilustrados no ano passado pela falência da sul-coreana Hanjin Shipping. “As falências estão em alta e as pressões econômicas têm levados a cortes de custos”, afirma a AGCS.

A empresa alerta que esses cortes podem acabar comprometendo a manutenção dos navios e causar um repique no número de sinistros no futuro.

Empresas do setor apontam que negligência por parte da tripulação e a manutenção inadequada dos navios são os riscos que mais preocupam o setor hoje em dia.

Por regiões

A região onde houve o maior número de sinistros em 2016 foi a que reúne o sul da China, Indochina, Indonésia e Filipinas, com 23 ocorrências, seguida pelo Mediterrâneo Oriental e o Mar Negro, com 12, e o norte da China, Coréia e Japão, com 11.

Estas três regiões foram também as que mais tiveram sinistros nos últimos dez anos, com 249, 162 e 139, respectivamente.

O maior navio a sofrer sinistros foi o New Mykonos, um cargueiro de 81,152 toneladas, que afundou na costa de Madagascar no mês de maio do ano passado.

Os navios de carga de mercados são os mais expostos a perdas, com 30 no ano passado e 481 desde 2007, seguidos pelos pesqueiros, com 9 e 198. Em ambos os casos, porém, o número de sinistros significativamente nos últimos anos. Houve 70 sinistros com navios de carga em 2007, e 34 com pesqueiros.

Mas a AGCS alerta que novos riscos pairam sobre o setor, como uma dependência cada vez maior da tecnologia.

Por um lado, a digitalização da atividade de transporte marítimo tem potencial reduzir o número de sinistros, uma vez que entre 75% e 96% dos incidentes registrados podem ser atribuídos a erros humanos.

Por outro, porém, é cada vez maior o temor de que as empresas marítimas sejam vítimas de ataques de hackers, que podem um dia chegar a controlar virtualmente algum navio.

“Enquanto a tendência de uma redução do número de sinistros é positiva, não há espaço para ser complacente”, disse Baptista Ossena, o chefe da área de Transportes Marítimos na AGCS. “O setor está sob pressão por vários riscos interconectados em um momento de desafios econômicos inerentes.”

Um exemplo desta interconexão é que a pressão por otimizar custos está levando cada vez mais empresas a encomendar navios cargueiros cada vez maiores. Estima-se que um acidente envolvendo dois megacargueiros, por exemplo, poderia gerar perdas de até US$ 4 bilhões.