RESSEGURO

Preços em queda devem resistir a furacões e terremoto

Para especialistas, perdas asseguradas causadas por passagens do Irma e Harvey nos EUA e tremor no México serão insuficientes para mudar tendência

14/09/2017 – 08:46
Atualizado em 13/10/2017 – 05:42
Irma e José pela Nasa

Imagem dos furacões Irma e José feita pela Nasa em 10/9. (Crédito: NASA/NOAA GOES Project)

No último mês, os Estados Unidos e o Caribe foram atingidos por dois fortes furacões; já o México, por um poderoso terremoto; e fortes inundações também afligiram a Itália e partes da Ásia.

Ainda assim, a expectativa do mercado é que a tendência de baixa de preços no resseguro mundial não seja interrompida.

Para analistas reunidos em Monte Carlo para o encontro anual da indústria de resseguros, nesta semana, o impacto dos furacões Irma e Harvey no setor serão significativos e devem afetar os resultados de vários subscritores.

Mas as catástrofes de agosto e setembro não devem ser suficientes para corroer a base de capital do mercado global de resseguros, o que, se ocorresse, poderia gerar um aumento dos preços nas próximas renovações.

A mais recente estimativa das perdas causadas pelo furacão Irma, divulgadas pela empresa de modelização catastrófica Karen & Co, colocou as perdas asseguradas em US$ 25 bilhões, US$ 18 bilhões dos quais nos Estados Unidos.

São perdas consideráveis, mas muito distantes dos US$ 130 bilhões que faziam parte da estimativa mais pessimista divulgada pelo Lloyd’s de Londres. O Irma perdeu força antes de atingir em cheio a Flórida e mudou de rumo, afastando-se das regiões mais habitadas, o que minimizou o seu impacto econômico.

Outros analistas de riscos divulgaram estimativas de perdas seguradas entre US$ 15 bilhões e US$ 40 bilhões devidos à passagem do Irma. A agência de ratings AM Best, por sua vez, calculou que o furacão pode ter causado perdas de até US$ 12,5 bilhões ao mercado de títulos catastróficos, uma importante fonte de capital adicional para o mercado ressegurador.

Harvey

Já o impacto do furacão Harvey, que atingiu o Texas e outros estados americanos uma semana antes do Irma, continua gerando debate no mercado.

A Karen & Co estima que o Harvey causou prejuízos segurados de US$ 15,4 bilhões. As perdas foram minimizadas pelo fato de que a maior parte dos contratos de seguro patrimoniais na região atingida cobrem danos causados pelos ventos, mas não por inundações, principal perda causada pelo furacão.

A empresa estima que, do total de danos segurados do Harvey, apenas US$ 2,5 bilhões foram resultado da ação dos ventos, enquanto que as inundações chegaram a US$ 12,5 bilhões. O alto valor se deve sobretudo às coberturas de seguros de automóveis que devem ser acionadas por causa das cheias.

Mas o número pode ser maior uma vez que forem computados os prejuízos cobertos pelo NFIP, um programa de proteção contra inundações mantido pelo governo americano.

Em depoimento à AM Best, David Flandro, responsável pela área analítica da corretora JLT Re, estimou que, uma vez computados os gastos do NFIP, as perdas asseguradas causadas pelo Harvey podem chegar a US$ 45 bilhões. Não está claro, porém, que parcela dos riscos cobertos pelo NFIP seria derivada ao mercado de resseguros. Estimativas divulgadas em Monte Carlo colocam as perdas totais do Harvey entre US$ 20 bilhões e US$ 30 bilhões.

Flandro estima que o mercado de resseguros tem um excesso de capacidade de US$ 60 bilhões, o que indica que o impacto dos dois furacões devem ser absorvidos sem grandes dificuldades pela indústria.

Além disso, analistas calculam que o mercado alternativo fornece entre US$ 80 bilhões e US$ 100 bilhões de capacidade extra.

Em Monte Carlo, diretores da AM Best disseram que, se o custo dos furacões tivesse alcançado um patamar entre US$ 100 bilhões e US$ 150 bilhões, o mercado poderia ver uma reversão de tendência, com os preços passando a aumentar.

Mas, como isso não aconteceu, deve seguir o cenário atual de baixos preços, termos e condições mais amistosas, redução na liberação de reservas e abundância de capital.

A AM Best colocou o mercado de resseguros em uma perspectiva futura negativa.

Empresas com forte exposição ao mercado da Flórida, em especial, tendem a ter seus resultados afetados como resultado da temporada de furacões.

O Harvey causou a morte de ao menos 70 pessoas, enquanto que o Irma já está diretamente associado a mais de 30 mortes nos Estados Unidos e 38 no Caribe.

México

Já o terremoto mexicano do começo de setembro, que chegou a 8,2 pontos na escala Richter, deve ter pouco impacto no mercado, já que atingiu principalmente uma região de baixa densidade populacional.

Os estados afetados foram principalmente Oaxaca, Chiapas e Tabasco, em áreas onde o potencial de perdas asseguradas é reduzida.

A Cidade do México, onde os prejuízos poderiam ser bem mais significativos, foi em grande medida poupada pelo tremor.

O estado mexicano deve arcar com a maior parcela das perdas, e parte dos prejuízos devem ser cobertos por títulos catastróficos de US$ 360 milhões que foram emitidos pelo governo mexicano nos últimos anos.

A catástrofe deixou mais de 90 mortos, especialmente em Oaxaca.

Enchentes no estado de Bihar, além de outra partes da Índia, Nepal e Bangladesh, também causaram grande destruição em agosto, matando mais de 600 pessoas, mas seu impacto sobre a indústria de seguros tende a ser limitado.

Na Itália, as enchentes têm atingido principalmente a região da Toscana, causando a morte de ao menos seis pessoas.