CLAUSULADOS

Mercado busca seguro sob medida para empresas de energia

Segundo especialistas, inclusão de condições particulares exige tempo e negociação com a Susep e é mais simples se amplia coberturas

19/05/2017 – 07:11
Atualizado em 22/06/2017 – 07:44
Plataforma da Petrobras: setor tem necessidades específicias. (Foto: Divulgação)

Plataforma da Petrobras: setor tem necessidades específicias. (Foto: Divulgação)

Apólices de seguros sob medida para as empresas de energia exigem trabalho e negociação com a Susep, mas hoje é possível oferecê-las para as empresas do setor, de com corretores e seguradores ouvidos pela RSB.

Gestores de risco de empresas de energia encontram dificuldades para adquirir coberturas que se adaptem às suas necessidades específicas, que variam muito de acordo com a natureza do projeto, a tecnologia utilizada, a região onde está sendo desenvolvido e outros fatores.

A situação se tornou especialmente grave depois que a Susep proibiu, alguns anos atrás, os chamados seguros singulares, que facilitavam a oferta de produtos que não haviam sido pré-autorizados pela autarquia.

Hoje, de acordo com Tiago Moraes, o líder do setor de Power & Utilities na corretora Marsh, o que se faz é incluir cláusulas de “condições particulares” que abrangem situações não previstas nas apólices previamente aprovadas pela Susep.

Caso estas apólices ampliem as coberturas obtidas pelo comprador, a tendência é que sua tramitação na Susep seja bastante tranquila. É mais complicado, porém, quando as novas condições restringem as coberturas padronizadas do mercado.

“Isso às vezes acontece, e, neste caso, precisamos buscar uma pré-aprovação da Susep, e isso pode levar algo mais de tempo,” disse Francilene Rodrigues de Freitas, gerente executiva de Riscos Globais da BB MAPFRE.

Segundo Moraes, tipicamente é necessária a inclusão de 10 a 15 cláusulas de condições especiais nos contratos de seguros adquiridas por empresas de energia.

Prazo

A Susep tem uma reputação de ser pouco flexível na hora de aprovar condições que se afastem dos clausulados pré-aprovados pela autarquia. Mas os especialistas dizem que, com algo de esforço e criatividade, coberturas sob medida podem sim ser elaboradas.

“A questão é realmente de prazo”, afirmou Rodrigues. “Se a compradora de seguros consegue se antecipar e nos dá um prazo para que nós possamos avaliar as condições que ela necessita, conseguimos obter algumas liberdades perante a Susep.”

De certa forma, disse ela, as empresas de energia também enfrentam uma certa redução na margem de manobra para elaborar suas políticas de seguros devido ao algo grau de regulamentação a que estão sujeitas em sua atividade.

“Temos um foco tailor made, analisando operação por operação,” disse Rodrigues. “Mas o setor de energia elétrica funciona um pouco como uma commodity no Brasil porque depende de tratados governamentais e licitações. Então o engessamento está em grande parte do lado do segurado.”

“No que podemos atender, procuramos elaborar coberturas diferenciadas”, completou.

Por sua vez, Bruna Timbó, sócia da corretora LTSeg, disse que muitas vezes é possível valer-se do mercado de resseguros para ampliar as coberturas de grandes riscos.

“Os clausulados não podem ser mudados, mas alguns riscos podem ser estrategicamente transferidos para o resseguro”, afirmou.

Novas coberturas

Moraes acredita que uma eventual retomada dos investimentos em energia deve motivar o desenvolvimento não apenas das linhas de seguros tradicionalmente ligadas ao setor, mas também segmentos emergentes como o seguro paramétrico e o cibernético.

“Temos até um cliente que nos pediu para obter uma cobertura de risco de terrorismo, o que é bastante raro no Brasil”, disse o executivo.

Neste caso, trata-se de uma empresa internacional cuja política global de seguros prevê a contratação deste seguro para todas suas unidades.

A esperada participação cada vez maior de empresas internacionais no setor energético, de fato, é um fator que pode ajudar a desenvolver o mercado de seguros especializados e a impulsionar a gestão das empresas, acredita Moraes.

O mercado está se preparando para uma eventual retomada dos investimentos, algo antecipado pelo sucesso dos recentes leilões de linhas de transmissão e a mudança nas regras de exploração do pré-sal, anunciadas pelo governo no início do ano.

A retomada deve sofrer um atraso com o recrudescimento da instabilidade política, mas, quando ganhe fôlego, pode impulso a várias linhas de seguros.

Além dos chamados riscos de petróleo, que incluem uma série de coberturas patrimoniais e de interrupção de negócios, linhas de responsabilidade também tendem a se beneficiar, e, segundo Rodrigues, um produto que ganha cada vez mais peso no setor é o seguro D&O.

“É uma cobertura que analisamos com muito critério, até porque dependemos do resseguro”, disse a executiva.

Outra linha que pode receber impulso é o seguro garantia, especialmente na medida em que se analisa a possibilidade de ampliar a participação deste produto nas concessões de infraestrutura.

Mas Timbó disse que há problemas hoje no mercado, já que os bancos de fomento estão se recusando a aceitar o seguro garantia e outras modalidades de garantias financeiras, especialmente de empresas estrangeiras que obtêm projetos no Brasil.

“Temos um cliente francês, por exemplo, que teve que adiar dois projetos com investimentos de R$ 400 milhões porque os bancos não aceitam as garantias que esta empresa apresenta”, afirmou.