GESTÃO DE RISCO E ESPIONAGEM

EUA vêem cadeia de suprimento como risco à soberania nacional

Agência do governo americano alerta para a alta presença de empresas da China nos elos de produção na indústria de informática

20/04/2018 – 10:33
Atualizado em 25/05/2018 – 10:11
O centro de P&D da Huawei em Shenzhen, na China. (Foto: Divulgação)

O centro de P&D da Huawei em Shenzhen, na China. (Foto: Divulgação)

Para quem ainda não acordou para os riscos ligados às cadeias de suprimento, um estudo recém-publicado nos Estados Unidos provê argumentos para mudar de postura, ligando o problema a temas como espionagem, roubo de dados e ataques cibernéticos.

Uma agência do governo americano até mesmo alertou que a gestão de riscos das cadeias de suprimento é uma questão de segurança nacional para o país.

Em um relatório focado sobretudo na China, a comissão alerta sobre o crescente peso do país asiático na produção de equipamentos e serviços amplamente utilizados pelas agências do governo local.

“Ameaças à segurança nacional dos EUA ligadas às cadeias de suprimento derivam de produtos produzidos, elaborados ou montados por entidades que pertencem, são orientadas ou são subsidiadas por governos estrangeiros,” afirma o documento.

Os autores, que pertencem à empresa de consultoria Interos, argumentam que tais produtos podem ser modificados para que funcionem mal ou falhem totalmente uma vez instalados nos sistemas do governo americano.

Além disso, podem facilitar atos de espionagem por parte de Estados ou empresas estrangeiras ou propiciar o vazamento de informações sensíveis do governo federal para destinos indesejados.

Grandes companhias chinesas que são fornecedores diretos ou indiretos de órgãos oficiais, como a Lenovo, Huawei e Lexmart, são citadas como exemplos de elos da cadeia de suprimento que devem ser acompanhados de perto por uma política de gestão de risco.

Risco em alta

O estudo alerta que os ataques cibernéticos contra órgãos de governo e outras entidades se tornarão mais fáceis de ocorrer uma vez que se disseminarem a tecnologia 5G de dados móveis e um número cada vez maior de equipamentos ligados à internet – a chamada “internet das coisas”.

Por esse motivo, prega que a gestão de risco das cadeias de suprimento seja reforçada com uma maior centralização dos trabalhos no seio do governo e um aperto regulatório.

Além disso, cobra maior transparência das grandes empresas que fornecem equipamentos e sistemas para as entidades oficiais e possuem grande parte de sua cadeia de suprimento no exterior.

Entre esse grupo, a presença de provedores ou subsidiárias sediados na China é preponderante.

Os autores analisaram a cadeia de suprimento da Hewlett-Packard, IBM, Dell, Cisco, Unisys, Microsoft e Intel, que estão entre os maiores parceiros tecnológicos do governo, e concluiu que, em média, 51% dos carregamentos de produtos dessas empresas se originam na China. No caso da Microsoft, a parcela é de 73%.

O rastreamento dos insumos usados na produção é complicado, muitas vezes passando por vários países e empresas antes de chegar ao seu destino final, motivo porque os autores cobram que os provedores do governo sejam transparentes e adotem medidas de compliance que garantam que seus próprio parceiros comerciais façam o mesmo.

Estratégia

Em anos recentes, a China procurou reforçar sua presença no mercado de alta informática com uma estratégia que obriga as empresas internacionais instaladas no país a compartilhar tecnologias e a ceder parte do controle de suas operações a parceiros locais, muitos dos quais têm relação com o governo.

Além disso, empresas chinesas têm realizados aquisições ao redor do mundo em ações que, na visão de alguns especialista, visam reforçar a posição do país como uma superpotência tecnológica.

A presença chinesa se sente especialmente entre os produtos informáticos produzidos em série, ou off-the-shelf, que respondem por 95% de todos os componentes eletrônicos e sistemas de informática comprados pelas entidades do governo americano no mercado.

A preocupação do governo americano com a presença de empresas chinesas no setor de informática e sua possível relação com atos nocivos à segurança nacional já havia se manifestado anterioremente no veto do presidente Donald Trump à compra da produtora de semicondutores Qualcomm pela Broadcom, sediada em Cingapura, devidos aos laços que ela teria com entidades chinesas.

O governo americano também implementou nesta semana uma medida que restringe a habilidade de empresas de telefonia subsiadas pelo Estado de comprar equipamentos de provedores chineses, afetando os negócios da Huwaei e da ZTE no país.

Recentemente, também havia expressado preocupação com a participação da Huawei na criação de uma inovadora rede nacional de telefonia celular no México.

Clique aqui para ler o relatório em inglês.