EDITORIAL

Em 2018, é preciso salvar o progresso dos últimos anos

Avanços contra corrupção e mehores práticas empresariais tiveram um alto custo, mas agora estão sob ameaça dos suspeitos de sempre

22/12/2017 – 07:33
Atualizado em 16/02/2018 – 08:53

No final de 2016, a Risco Seguro Brasil desejou um feliz 2018 a seus leitores, já que 2017 parecia que ia ser dureza.

Mais uma vez, pedimos a compreensão do estimado público para adiar por mais um ano nossas esperanças de que a coisa melhore de vez.

É verdade que, diferentemente de 2017, o ano que vem se introduz com uma realista expectativa de melhorias no cenário econômico.

As taxas de juros caíram para os níveis mais baixos em muito tempo e o mercado espera um crescimento do PIB entre 2% e 2,5%, o que não está nada mal, considerando o pífio desempenho da economia nos últimos anos.

Também há sinais de uma leve recuperação da confiança do consumidor, e os investidores internacionais parecem estar voltando com maior vigor, como indicam os recentes leilões de linhas de transmissão realizados pelo governo.

O que pode atrapalhar a melhoria cíclica da economia são os fatores de sempre: a incompetência e desonestidade de governos, a insegurança regulatória e a falta de competitividade de empresas acostumadas a ganhar dinheiro na base dos subsídios e do jogo sujo.

Além disso, parece estar a todo vapor uma operação organizada para dar fim à Operação Lava Jato e seus desdobramentos, com a participação ativa não só de um Poder Executivo sem crédito e de um Congresso desmoralizado, mas também de ministros do Supremo Tribunal Federal.

Tais personagens vão minando as medidas saneadoras com o argumento falacioso da estabilidade política e a modernidade econômica. Utilizando ferramentas como o irracional medo do mercado quanto à reforma da Previdência e outros fatores do tipo, eles tentam manter o velho esquema e avacalhar com a verdadeira modernização do país: a das práticas e costumes.

Se esta turma continuar brincando, é bem possível que as eleições de 2018 tragam resultados indesejáveis para a classe política e para as empresas.

Isso sem falar na população em geral. Mas esta já esteja acostumada a acabar com o osso e, no atual momento, tem motivos de sobra para acreditar, ainda que erronemante, que pouco mais tem a perder.

Olhos abertos

Nossos votos para o ano que se avizinha são ao mesmo tempo simples e muito difíceis de se tornar realidade: que o Brasil continue sendo passado a limpo.

As investigações realizadas nos últimos quatro anos estão tendo um efeito salutar jamais visto no país.

Estruturas políticas apodrecidas são expostas com áudios, vídeos e imagens em toda sua falta de esplendor.

Práticas de negócios consagradas por séculos de picaretagem estão se tornando inaceitáveis para qualquer empresário que deseje evitar que suas famílias sejam hostilizadas na sociedade.

As empresas estão sendo obrigadas a prestar atenção à gestão de riscos e ao compliance a fim de evitar que os maus hábitos continuem prevalecendo.

Muito progresso foi feito neste sentido, mas a jornada é longa e, em nossa pouco e mal institucionalizada sociedade, ainda está começando.

Não só em Brasília

Em 2018, o mais importante é impedir que os pequenos avanços já conquistados sejam revertidos pelos suspeitos de sempre. E isso se faz não em outubro, quando se abrem as urnas, mas no dia-a-dia.

O papel das empresas neste processo é o de atuar de forma responsável na hora de interagir com o setor público, com seus provedores e com seus clientes. É preciso evitar o pagamento de propinas a políticos e a cartelização nas obras públicas e nos mercados privados.

Também é necessário criar um ambiente interno em que os funcionários se sintam à vontade para relatar más práticas e contribuir com ideias que ajudem a aprimorar a gestão da organização.

Nestes tempos de mudanças, o gestor de riscos e seus colegas no departamento de compliance têm um papel cada vez mais importante para garantir que a empresa sobreviva e floresça em um ambiente mais competitivo e menos viciado.

Esperamos, portanto, que, em 2018, mais empresas deem mais atenção a esses dois setores-chaves. Mais importante, que não fiquem só no lero-lero, como com muita frequência continua sendo o caso hoje em dia.

Porque é muito fácil culpar os pilantras de Brasília por todos os maus que acometem o país. Mas a verdade crua é que os problemas começam no nosso próprio quintal.