BOLA DE CRISTAL

Dormir pouco é um dos riscos que tiram o sono do mercado

Para Swiss Re, ameaças emergentes também incluem incerteza geopolítica, sinistros ligados ao amianto e prédios inflamáveis

08/06/2018 – 07:00
Atualizado em 15/06/2018 – 05:57
Wilton Paes de Almeida

Local onde estava o edifício Wilton Paes de Almeida: prédios inflamáveis preocupam. (Foto: Leon Rodrigues/SECOM)

Vivemos em propriedades com grandes riscos de incêndio, muitas vezes construídas com materiais tóxicos como o amianto, ao mesmo tempo em que a agitação política toma conta das ruas.

Para completar, dormimos cada vez menos, e não é de susto: novos hábitos e tecnologias estão mantendo as pessoas acordadas por mais tempo do que deveriam, aumentando o risco de erros humanos, obesidade, ataques cardíacos e outros problemas.

Esse é um mix dos riscos emergentes mais urgentes enfrentados pela indústria do seguro, de acordo com o mais recente relatório sobre o tema divulgado pela Swiss Re.

O relatório Sonar, publicado a cada ano a partir de informações coletadas de subscritores, corretores e clientes, também põe o foco em temas como os ataques cibernéticos, os riscos ambientais e os perigos e oportunidades trazidas por desenvolvimentos tecnológicos como o uso cada vez mais intenso da inteligência artificial.

Leia abaixo alguns exemplos:

Edifícios inflamáveis

Alguns dos riscos emergentes não são exatamene novos, como é o caso das ações de responsabilidade ligadas ao uso e manuseio do amianto.

A Swiss Re nota que sinistros ligados ao amianto, que está relacionado a enfermidades como o câncer, já causaram perdas de quase US$ 100 milhões para a indústria do seguro só nos Estados Unidos.

Mas o tema continua sendo uma bomba relógio implantado no coração da indústria seguradora. As enfermidades ligadas ao emprego ou mineração de amianto tendem a se manifestar 40 ou 50 anos depois que a pessoa teve contato com a substância tóxica. O mesmo passa, logicamente, com os sinistros de seguro.

A Swiss Re nota que, apesar da literatura existente sobre o tema, o amianto continua sendo minerado e segue amplamente presente em construções em países como a Rússia, Índia, China e Indonésia.

E também, é claro, no Brasil, onde o Supremo Tribunal Federal demorou mais de uma década para julgar uma ação que proibia o uso do amianto em todo o país. O veredicto só foi alcançado em novembro de 2017.

A Swiss Re recomenda que apólices de seguros tragam exclusões para o amianto, sempre que possível. Mas as indenizações do futuro provavelmente já estão plantadas em contratos em vigor.

Outro risco emergente de alto impacto ligado a edificações diz respeito ao uso de revestimentos inflamáveis na construção de arranha-céus.

Foi esse tipo de material que estava presente na torre Grenfell, que pegou fogo em Londres no ano passado, matando mais de 70 pessoas.

Mais uma vez, o Brasil tristemente ajuda a ilustrar o risco com o incêndio do edifício Wilton Paes de Almeida, em São Paulo, que pode ter sido agravado, entre outros fatores, pelo uso de materiais pouco resistentes ao fogo em sua construção. Ao menos sete pessoas morreram.

Geopolítica

A Swiss Re também recomenda aos executivos de seguro que fiquem de olho nas mudanças geopolíticas que estão acontecendo ao redor do mundo.

Vários países, incluindo o Brasil, estão vivendo a emergência de movimentos populistas de cariz mais radicalizado.

Os Estados Unidos estão adotando uma postura unilateral, acelerando a mudança de eixo de poder rumo à Ásia, com uma China cada vez mais confiante como protagonista.

Com a atual arquitetura multilateral sob ameaça, aumentam também as incertezas para as empresas de seguros e resseguros que têm negócios globalizados e fortamente ancorados nas atuais estruturas de governança.

Para complicar ainda mais, a deterioração das estruturas de governança também aumenta o risco de conflitos militares e reduz a possibilidade colaboração interenacional para frear processos como o aquecimento global. Ambos desdobramentos elevam os riscos de que o setor sofra perdas de valor cada vez mais elevado.

A cereja envenenada no bolo indigesto é a emergência do protecionismo e um aperto regulatório cada vez mais premente. Com economias se fechando para empresas de outros países, os grupos seguradores podem vir a perder acesso a mercados importantes, comprometendo estratégias de diversificação de riscos que são vitais para a sua sobrevivência.

De tirar o sono

Outros riscos emergentes parecem menos dramáticos, mas mesmo assim têm o potencial de tirar o sono dos executivos do setor.

Um deles é justamente o fato de que as pessoas estão dormindo cada vez menos. A Swiss Re alerta que, devido à difusão de novas tecnologias como telefones celulares e iluminação LED, além de práticas como o teletrabalho, as longas viagens para chegar ao trabalho ou a necessidade de ter vários empregos para sustentar a família, estão reduzindo o número de horas de sono dos cidadãos.

A falta de sono tem dois efeitos principais para a indústria. Em primeiro lugar, dormir pouco aumenta o risco de condições como obesidade, ataques cardíacos e infartos, elevando a conta das seguradoras de saúde e, quando levam o segurado desta para uma melhor, também para as de vida.

Por outro lado, funcionários que dormem menos estão mais propensos a cometer erros em seus ambientes de trabalho, elevando o risco de acidentes que podem gerar perdas de propriedade e responsabilidade, além das próprias coberturas de acidentes de trabalho.

A Swiss Re lembra que, em todo o mundo, dois de cada três sinistros de seguro já estão ligados a erros humanos.