MENTES CRIMINOSAS

‘Diamante da Fraude’ vira Pentágono ao incluir disposição ao risco

Fatores que levam a cometer delito vão da percepção moral do indivíduo até seu apetite para correr o risco de ser pego em flagrante

Oscar Röcker Netto
10/05/2016 – 08:50
Atualizado em 10/05/2016 – 12:18
Vários fatores determinam se potencial fraudador vai embolsar o dinheiro (Foto: Marcos Santos/USP Imagens)

Vários fatores determinam se potencial fraudador vai embolsar o dinheiro (Foto: Marcos Santos/USP Imagens)

Com o desenvolvimento do mercado, da administração e das empresas, o estudo das fraudes também evoluiu, numa busca da academia em consolidar as melhores formas de abordar uma questão importante nas organizações.

Em 1953, Donald Cressey apresentou o chamado Triângulo da Fraude. Ele apontava então que o problema está ancorado na Racionalização (percepção moral do indivíduo sobre o que é certo e errado), Oportunidade (percepção sobre a vulnerabilidade do que se pretende fraudar) e Pressão (a necessidade que ele tem para fraudar).

Nos anos 1980, um quarto elemento entrou na equação acadêmica do problema: o estudo da habilidade que o fraudador tem para cometer a burla, explica Renato Santos, que há dois meses apresentou seu doutorado sobre o tema na PUC-SP.

Com isso, o Triângulo se tornou um Diamante da Fraude. Agora Santos adicionou um quinto elemento à história: a Disposição ao Risco, que é o cálculo que o potencial fraudador faz para se decidir pela ação.

Nasceu assim o Pentágono da Fraude, complemento de Santos para o estudo do tema, composto por Oportunidade, Racionalização, Pressão, Capacidade — e Disposição ao Risco.

Medo

“Esse [último] é um ponto importante”, diz ele. “Se o potencial fraudador tiver medo, não vai cometer a fraude.”

De acordo com Santos, há três tipos de riscos que são analisados pelo potencial vilão e aos quais as empresas precisam estar atentas. São eles: o risco perigo (medo das consequências), o risco probabilidade (as chances de dar certo e o grau de impunidade na empresa caso seja pego) e o risco aventura (segundo ele, uma característica de profissionais que gostam de desafios, mesmo que criminosos, e não veem muito problema em lançar mão de expedientes heterodoxos).

Muita teoria? Para Santos, não. Segundo ele, “a prática sem teoria fica capenga” e traz poucos resultados para as empresas. A abordagem de combate a irregularidades necessita de parâmetros sólidos. “Sem parametrizar os riscos, fica tudo no achismo e só se enxuga gelo”, afirma. “É preciso de fato se buscar soluções práticas.”

Tanto é assim que o trabalho desenvolvido para o doutorado serve de base também para o serviço prestado pela S2 Consultoria, de que é sócio.

De acordo com Santos, as primeiras pesquisas acadêmicas “não padronizaram o conceito de fraude e não abordaram de forma direta e prática a ética das instituições”. O Pentágono, defende, busca identificar no complexo emaranhado envolvido as causas mais relevantes das fraudes.

Potencial

A premissa do consultor é de que é possível não apenas prevenir as fraudes, mas identificar quanto uma empresa tem de possibilidade de abrigar ações fraudulentas.

A prevenção inclui bloquear a realização de fraudes. “É como instalar trancas e alarmes para o ladrão não entrar em casa”, compara.

Já a questão preditiva trabalha na linha de fazer um prognóstico sobre fraudes potenciais. “Se trata de não deixar o funcionário se transformar num fraudador”, diz Santos.

Na prática isso significa, segundo ele, trabalhar o comportamento dos funcionários, por meio de diagnóstico de cultura empresarial e de instrumentos que desarticulem a possibilidade de vir a fraudar — o que basicamente é feito mostrando os riscos a que um funcionário fraudador está exposto.

“Dá muito mais resultado”, garante.

Pesquisa mostra agentes e causas de fraudes nas empresas