ESSA NÃO...

Consultoria prevê um 2018 pleno de riscos

Hackers e reguladores cercam empresas no mundo digital, enquanto Trump, Coreia do Norte, Oriente Médio e outros pairam sobre economia global

22/12/2017 – 07:27
Atualizado em 22/12/2017 – 11:56
Míssil norte-coreano

Míssil testado pela Coréia do Norte no fim de novembro: tensão geopolítica deve aumentar em 2018. (Foto: KCNA)

Que dureza, 2017. Ainda bem que já está acabando. Depois de tantas catástrofes naturais, econômicas, políticas e geopolíticas, em 2018 a situação só pode melhorar.

Ou será que não? De acordo com a consultoria Control Risks, pelo menos, o melhor é manter as barbas de molho com a chegada do novo ano.

Há certamente motivos para otimismo. Por exemplo, a empresa prevê para 2018 as taxas mais altas de crescimento global dos últimos dez anos. Um sinal de que, finalmente, a crise financeira global pode estar chegando ao fim.

Mas os motivos para otimismo não vão muito além da recuperação econômica, que, aliás, pode estar sujeita a fatores exógenos como a geopolítica e a emergência do risco cibernético.

No lado negativo, a Control Risks vê uma miríade de elementos a nível global que podem causar dores-de-cabeça para as empresas. E o mais preocupante, do ponto-de-vista da gestão de riscos, é que tais fatores estão fora do controle das companhias. Seguem alguns exemplos:

Riscos cibernéticos

De acordo com a Control Risks, no ano que vem os ataques cibernéticos vão continuar em alta. Ao mesmo tempo, as empresas estarão cada vez mais sujeitas a apertos regulatórios em áreas como a proteção de dados e a privacidade.

Em outras palavras, podem tanto perder enormes quantidades de dinheiro para os criminosos, como sofrer multas gigantescas de entes reguladores. A entrada em vigor, em maio, da diretiva europeia sobre proteção de dados (conhecida como GDPR), que tem aplicação universal, é um marco global neste sentido.

Há ainda todas as consequências em termos de reputação e posicionamento originados em um uso de mídias sociais cada vez mais agressivo e descontrolado por parte dos consumidores.

E hackers que continuam ganhando em sofisticação e que com frequência estão um passo adiante dos profissionais de segurança cibernética e das autoridades.

“Os ataques de grande escala de 2017 (WannaCry, NotPetya) não tinham foco e foram bagunçados”, observa Nicholas Rey, diretor associado da Control Risks. “Os de 2018 não o serão.”

A empresa também espera que as tentativas de sequestros virtuais, usadas por hackers para extorquir dinheiro das empresas ao bloquear seus sistemas, continuem em alta no ano que vem.

Geopolítica

A Control Risks afirma que os temas geopolíticos que marcarão 2018 estão entre os “mais duros” já enfrentados pelo mundo em um bom tempo.

Eles vão desde a escalada das tensões relacionadas à Coreia do Norte até o agravamento da rivalidade entre Arábia Saudita e Irã no Oriente Médio e a briga semioculta entre vários países para controlar a economia digital.

A consolidação do poder de Xi Jinping na China, gerando dúvidas sobre a capacidade do país de reformar sua economia, a ascensão do nacionalismo hindu que paira sobre a modernização econômica da Índia, o papel da Rússia e a pressão nacionalista na Europa são outros temas que podem causar marola na economia global.

E tudo isso em um momento em que o país que simboliza a estabilidade global no período após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos, tenta se reencontrar sob a errática presidência de Donald Trump.

A falta de previsibilidade do governo Trump continua também criando incertezas a respeito da anunciada guinada protecionista dos Estados Unidos, ainda que, até o momento, ela tenha se mostrado mais retórica eleitoral que política econômica.

Como resultado desta turbulência toda, as empresas enfrentam um ambiente de negócio mais pedregoso, apesar da retomada do crescimento global.

“Apesar do cenário mais positivo para a economia global desde o fim da crise financeira, estamos entrando em um ano de fragilidade geopolítica que tem o potencial de gerar ondas de choque na estabilidade global e a confiança das empresas”, avisou Richard Fenning, CEO da Control Risks.

“O maior risco é que a próxima ordem mundial vai ser imposta, e não negociada, [ao ser] determinada por mais provocações entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, ou por uma desestabilização no Oriente Médio devido à escalada da rivalidade entre Irã e Arábia Saudita.”

“Enquanto estes eventos são pouco prováveis, é certo que a dinâmica global e as percepções de risco estão sendo formadas por um estilo de liderança política mais personalizado e imprevisível em várias partes do mundo, tornando o planejamento do risco muito difícil”, concluiu Fenning.

A América Latina vai às urnas

Na América Latina, o grande foco das atenções é a série de eleições que vão ocorrer em vários países em 2018.

O ciclo eleitoral foi inaugurado pelo Chile, que acaba de eleger um presidente pró-mercado na figura do bilionário Sebastián Piñera.

Mas surpresas desagradáveis para os investidores e as empresas podem ocorrer em outros países, e no topo da lista de preocupações está o Brasil.

A Control Risks descreve as eleições de outubro como as mais imprevisíveis da história recente do país, com nenhum sinal do que vai substituir o sistema bipartidário que prevaleceu desde a década de 1990.

A consultoria alerta para o risco de surgimento de alternativas populistas como resultado do descontentamento da população com a economia e a corrupção, e avisa:

“Investidores que querem se beneficiar da recuperação econômica do Brasil – espera-se que o PIB cresça 2,4% em 2018 – vão ter que monitorar os riscos políticos com muita atenção”.

No México, que escolhe um novo presidente em julho, a empresa vê o esquerdista Andrés Manuel López Obrador como favorito, mas afirma que ainda há muita incerteza devido à desunião dos grupos de oposição ao impopular governo de Enrique Peña Nieto.

O clima eleitoral na Colômbia, por sua vez, faz prever um pleito polarizado, mas a consultoria acredita que, não importando quem seja escolhido para suceder o presidente José Manuel dos Santos, a linha econômica do país não deve mudar.