RISCO DE CRÉDITO

Coface vê recuperação no Brasil, mas desafios continuam

Países emergentes devem impulsionar crescimento mais robusto da economia global em 2017; incertezas afetam EUA e Europa

25/01/2017 – 07:52
Atualizado em 22/02/2017 – 14:58

Em meio a um cenário global conturbado, a seguradora de crédito Coface vê “raios de esperança” para a economia brasileira.

A empresa francesa apontou o Brasil como um dos prováveis pontos positivos para a economia mundial em 2017, um ano em que as empresas devem enfrentar uma série de desafios ligados às incertezas vigentes na Europa, nos Estados Unidos e na China.

Em relatório global de riscos divulgado em Paris, a Coface estima que a economia brasileira crescerá 0,4% neste ano, após dois anos consecutivos de forte retração. O mesmo deve acontecer com a Rússia, cujo PIB deve se expandir 0,8% em 2017.

A reversão de tendência nessas duas economias emergentes deve ser suficiente para compensar a gradual desaceleração econômica da China, que deve crescer 6,3%, após ter registrado 6,7% em 2016 e 6,9% em 2015.

Por outro lado, a Coface lista os quatro membros do chamado BRIC (que também inclui a Índia) como fonte de preocupação devido ao alto nível de endividamento das empresas.

A situação é mais preocupante na China, onde, além de o nível de endividamento das empresas ter atingido mais de 160% do PIB e seguir em alta, o governo local segue injetando crédito na economia em uma tentativa de conter a desaceleração econômica.

Desafios

Ainda que a Coface expresse certo otimismo com a recuperação da economia brasileira, a empresa não deixa de ressaltar os sérios desafios que o país ainda enfrenta.

A seguradora nota que o consumo das famílias, principal motor do crescimento econômico, está cada vez mais fraco, em grande parte devido à alta do desemprego.

Por sua vez, a fraca demanda, aliada a taxas de juros ainda elevadas, está inibindo os investimentos, que seguem abaixo de 20% do PIB. O real pode voltar a se desvalorizar na medida em que os Estados Unidos aumentarem suas taxas de juros.

Ao mesmo tempo, a incerteza política alimentada pelas investigações e protestos contra a corrupção aumentam a incerteza para as empresas, em um quadro social já agravado pelas tensões causadas pela alta desigualdade de renda.

A Coface compara a situação do Brasil com a da África do Sul, que enfrenta problemas similares. Mas a empresa manteve a avaliação de risco de crédito brasileira, enquanto que a sul-africana foi rebaixada de B (algo elevada) para C (elevada).

Verdade seja dita, o Brasil já se encontrava no patamar C e aí ficou. Já a avaliação de risco da Argentina melhorou, passando de C para B, ou seja, superior à do Brasil, já que a Coface espera que as reformas econômicas promovidas pelo presidente Mauricio Macri comecem a dar frutos no decorrer de 2017.

Situação global

Vários países emergentes enfrentam situações desafiadoras em 2017, segundo a Coface. Ainda assim, eles devem ser o principal motor de um crescimento mais dinâmico da economia global neste ano.

A seguradora prevê que o PIB global vai se expandir em 2,7% comparado com 2,5% em 2016. As economias emergentes respondem pelo grosso do novo vigor, já que devem crescer 4,1%, contra 3,7% no passado.

Pela primeira vez desde a metade de 2015, a Coface também atribuiu um número maior de melhorias na avaliação de risco dos países do que de degradações.

Onze economias, incluindo Argentina e Espanha, tiveram sua nota elevada. Apenas quatro, entre as quais México e África do Sul, receberam notas piores do que a da última avaliação divulgada pela empresa.

Estagnação avançada

As economias avançadas devem repetir neste ano o crescimento de 1,6%, em média, de 2016. A Coface aponta uma série de incertezas pesando sobre os Estados Unidos e a Europa que podem impedi-los de crescer de forma mais acelerada.

Nos Estados Unidos, as esperadas políticas protecionistas e expansionistas do novo presidente Donald Trump devem ter um efeito apenas modesto sobre a economia local, e podem mesmo afetar setores como a construção civil e as montadoras de automóveis, afirma a Coface. De quebra, países como México, Vietnã e Tailândia podem ser severamente prejudicados por um aumento do protecionismo americano.

No Reino Unido, incertezas sobre a negociação de sua saída da União Europeia podem adiar decisões de investimento das empresas e afetar setores como o farmacêutico e o automotivo. A Coface espera que o número de falências aumente 8% em 2017 no país.

Já na UE, a principal sombra sobre o que a Coface chama de uma “economia resistente” é a ascensão de movimentos populistas. França, Alemanha, Holanda e possivelmente Itália terão eleições neste ano em que candidatos anti-europeus podem chegar perto do poder. Na França, por exemplo, a ultranacionalista Martine Le Pen, do partido de extrema direita Frente Nacional, já lidera as pesquisas para as eleições presidenciais de abril.

Caso políticos nacionalistas consigam causar novos choques como o Brexit em seus países, o impacto sobre o crescimento do PIB pode chegar a 0,7 ponto percentual na França e 0,5 ponto percentual na Alemanha, estima a Coface.