FIM DE CICLO?

Aumentos devem chegar a mercados não-catastróficos como o Brasil

Corretores se preparam para explicar reversão do mercado brando também na América Latina; tema dominou discussões na Fides 2017, em El Salvador

08/12/2017 – 06:55
Atualizado em 16/02/2018 – 10:12
Bruno Freire, CEO da Austral Re.
Bruno Freire, CEO da Austral Re.

Após a inusitada série de catástrofes naturais que causou severas perdas à indústria de seguros, a expectativa do mercado é que os preços aumentem, pela primeira vez em vários anos, nas renovações de janeiro de 2018.

Mas será que o Brasil vai seguir esta mesma tendência? Afinal de contas, as perdas ocorreram principalmente nos Estados Unidos, México e Caribe. O Brasil, que está fora do circuito de furacões e terremotos, não sofreu grandes perdas catastróficas no ano.

Mesmo assim, devido ao caráter global da indústria, os compradores de seguro corporativo podem muito bem topar com cotações mais elevadas nas próximas renovações. Isso porque o caráter global da indústria produz um “efeito mariposa” através do qual as perdas sofridas em uma parte do mundo acabam se refletindo em outros países também.

Prova disso foi que, de acordo com participantes, o principal tema da reunião bianual da Fides, a federação de seguradoras latino-americanas, em El Salvador foi o possível aumento de tarifas no mercado da região.

E isso vale mesmo para as grandes economias poupadas pelas catástrofes naturais, como o Brasil, a Argentina e o Chile.

“Não acredito que os preços voltem aos patamares de 2011″, disse Bruno Freire, CEO da Austral re, que compareceu ao evento em San Salvador. “Mas eles devem parar de cair, e algum tipo de aumento deve acontecer.”

Aumentos generalizados

Freire vê as perdas catastróficas repercutindo nos preços dos seguros em todo o mundo de maneira similar ao efeito da forte disponibilidade de capital no mercado ressegurador, que em sua maior parte se origina nos países desenvolvidos.

“Assim como os preços caíram em praticamente todos os segmentos, não é correto argumentar que as linhas catastróficas devem subir, mas as não-catastróficas, não”, afirmou. “Na verdade, o lucro das linhas catastróficas vinha segurando as margens de vários resseguradoras, ainda que elas fossem estreitas, já que as tarifas em outras linhas haviam caído bastante.”

Além disso, os aumentos de preço acabam chegando aos países não expostos a catástrofes por meio dos contratos de retrocessão, através dos quais as resseguradoras atuantes em cada mercado acabam diluindo seus riscos no resseguro internacional.

Como resultado, os países com significativa exposição catastróficas, como a Colômbia e o Peru, devem ver seus preços mais diretamente afetados pelas perdas de 2017.

Mas os compradores brasileiros devem também preparar-se para uma reversão do mercado brando.

Explicações

Com isso, os corretores já estão afiando o discurso para explicar a seus clientes por que a conta do seguro pode acabar sendo mais cara em 2018.

“Ainda não está 100% claro qual será a conta final das recentes catástrofes naturais, mas há um sentimento unânime de que as tarifas vão subir nas próximas renovações”, disse José Astorqui, CEO da unidade latino-americana da corretora londrina BMS.

“Subscritores nos disseram que, para os riscos muito bons, as renovações serão estáveis, mas novas quedas de preço não devem ocorrer.”

Com as economias latino-americanas saindo de momentos difíceis, e os orçamentos das empresas sob pressão, Astorqui espera que muitos clientes reduzam suas coberturas ou aceitem franquias mais elevadas, caso os preços de fato aumentem.

E muitos devem expressar descontentamento ao ver suas apólices subirem por causa de eventos que não tiveram nada que ver nem com sua gestão de risco nem com as condições do mercado local.

“Compradores em mercados como Brasil, Argentina e Chile estão perguntando por que eles devem ser afetados por preços mais altos, se não sofreram com nenhuma catástrofe”, afirmou. “É um momento complicado para os corretores, que teremos que explicar por que os preços vão subir também naqueles mercados.”

Apesar das dificuldades dos últimos anos, a América Latina continua atraindo o interesse de subscritores de outras partes do planeta, como ficou claro no caso da conferência da Fides.

E esse grupo está cada vez mais composto de companhias que vão além dos tradicionais mercados resseguradores, a saber os Estados Unidos, Europa e Bermuda.

Participantes notaram a participação ativa de resseguradoras asiáticas como a coreana Korean Re e a indiana GIC no evento. A Korean Re já havia anunciado, em fevereiro, uma parceria com o IRB Brasil Re.

A Rússia marcou presença com a Russian Re, Russian National Reinsurance Company, a Selecta Insurance and Reinsurance e a Transsib re. A Sava re, da Eslovênia, também esteve entre os participantes.

“É interessante e útil ter um maior número de resseguradoras de fora da América Latina fazendo negócio na região”, disse David Battman, chefe da área Internacional da BMS.

A próxima edição da Fides ocorrerá em 2019 em Santa Cruz, na Bolívia.