CATÁSTROFES EM SÉRIE

Após furacões e terremotos, incêndio aumenta pressão sobre preços

RMS estima perdas econômicas de desastre na Califórnia em até US$ 6 bi; risco preocupa setor segurador, que pode ter recorde de perdas em 2017

16/10/2017 – 04:50
Atualizado em 10/11/2017 – 07:31
Fogo atingiu região produtora de vinho, matando ao menos 40. (Foto: Reprodução)

Fogo atingiu região produtora de vinho, matando ao menos 40. (Foto: Reprodução)

O grande incêndio florestal que matou ao menos 40 pessoas no norte da Califórnia na semana passada deu forma a um risco que cada vez preocupa mais o mercado de seguros e colocou mais pressão sobre o resultados do setor, já castigado nos últimos meses por furacões, terremotos e enchentes.

As perdas acumuladas podem acabar sendo suficientes para mudar a tendência global de preços, ao menos de acordo com a Standard & Poor’s, que espera uma leve tendência de aumento de tarifas nas renovações de janeiro. As perdas também já começam a aparecer nos resultados do terceiro trimestre e podem acabar atingindo as reservas de capital das resseguradoras.

De acordo com a empresa de modelação de riscos RMS, os danos econômicos causados pelos incêndios que atingiram regiões vinícolas da Califórnia entre 8 e 11 de outubro destruíram 100,000 acres de florestas nos condados de Napa, Sonoma e Solano.

Isso deve representar perdas econômicas entre US$ 3 bilhões e US$ 6 bilhões, derivadas dos danos causados a propriedades localizadas na região.

Até o final da semana passada, 3.500 propriedades haviam sido afetadas pelo fogo, de acordo com a RMS. Ao todo, havia 14.000 residências e 1.000 propriedades comerciais nas regiões de maior risco.

Porém a estimativa não inclui danos causados a automóveis, perdas agrícolas, lucros cessantes e outros riscos não relacionados diretamente aos danos à propriedade.

Risco em alta

A catástrofe californiana ajuda a ilustrar um risco que ganha força no mercado e que preocupa os seguradores, o dos incêndios florestais.

Outrora limitados a áreas pouco populosas e com escassa atividade econômica, os grandes fogos florestais estão agora atingindo regiões com maior densidade demográfica graças a uma tendência, observada em países como os Estados Unidos e o Canadá, de invasão das florestas por aglomerações urbanas.

Além disso, o aquecimento global parece estar aumentando a frequência e a severidade dos grandes incêndios. O caso mais notório foi o da região de Fort McMurray, no Canadá, que gerou perdas seguradas de US$ 2,9 bilhões, as maiores da história do país, ao destruir mais de 32.000 propriedades residenciais e comerciais.

A catástrofe canadense está longe de ser isolada. Em junho, um grande incêndio florestal na região de Pedrógão Grande, em Portugal, matou mais de 60 pessoas. Nos próprios Estados Unidos, 14 pessoas morreram e prejuízos segurados de mais de US$ 600 milhões foram causados por incêndios que devastaram a cidade turística de Gatlinburg, no Tennessee, em 2016.

Segundo a Universidade de Louvain, na Bélgica, mais de mil pessoas morreram em incêndios florestais em todo o mundo desde o ano 2000. As perdas seguradas acumuladas resultantes dessas tragédias chegam a mais de US$ 40 bilhões.

“Os incêndios florestais estão se tornando mais sérios porque os eventos estão ocorrendo nas redondezas de área de interface entre a floresta e os setores urbanos, que não param de se expandir”, disse Kevin Van Leer, um expert da RMS, em recente entrevista à RSB.

“Nós esperamos um clima mais quente e mais seco no futuro. Consequentemente, mais fogo também”, acrescentou Mike Flannigan, um pesquisador da Universidade de Alberta, no Canadá. “Só está ficando pior.”

A situação é especialmente preocupante em áreas onde as pessoas estão optando por viver cada vez mais perto da natureza, como o Oeste dos Estados Unidos e do Canadá. “Há grandes regiões densamente habitadas na Califórnia que estão cercadas pelo risco de incêndios florestais”, observou Tom Jeffery, um analista da consultoria de risco CoreLogic.

Tais regiões também contam com alta penetração de seguros, o que aumenta os riscos para o setor. A CoreLogic estima, por exemplo, que o incêndio de outubro colocou em risco mais de 172 mil propriedades, com um valor de reconstrução acumulado de US$ 65 bilhões. Em todo o estado, 9,1 milhões de propriedades, com um valor acumulado de US$ 3,1 trilhões, estão sob alguma exposição ao risco de incêndios florestais, segundo a empresa.

De acordo com a Verisk, outra consultoria de risco, cerca de 30% das propriedades nos Estados de Oklahoma e Wyoming e 50% no de Montana estão expostas ao risco.

Mudança de ciclo?

Os incêndios da Califórnia aumentam a preocupação no setor ressegurador, que enfrenta o que pode ser o ano com maiores perdas acumuladas já registrado, segundo a S&P.

A empresa afirma que as perdas causadas pelos furacões Irma, Harvey e Maria, entre outros, além dos terremotos no México, os incêndios de outubro e mais eventos que podem acontecer até o final do ano, devem levar a conta de perdas asseguradas bem além dos US$ 77 bilhões, em valores atualizados, sofridos em 2005, ano dos furacões Katrina, Wilma e Rita.

A perspectiva é que as perdas acumuladas em 2017 passem de US$ 100 bilhões, o que cria a possibilidade de uma reversão nas quedas de preços que há vários anos se observam nos seguros globais. A S&P espera que as tarifas subam entre 0 e 5%, em média, nas próximas renovações.

O que não há dúvida é que os resultados de várias empresas do setor devem sofrer. O Lloyd’s de Londres, por exemplo, anunciou perdas de 3,3 bilhões de libras (US$ 4,4 bilhões) apenas com os furacões Harvey e Irma.

Na AIG, as perdas relacionadas aos furacões e terremotos do verão chegam a US$ 3,1 bilhões. Na Chubb, o valor é de até US$ 1,6 bilhão, antes de impostos, apenas com Harvey e Irma.

A XL estima que suas perdas ligadas ao Harvey, Irma e Maria foram de US$ 1,33 bilhão, de um total de US$ 1,48 bilhão no terceiro trimestre. Na Markel, o valor é de US$ 503 milhões, e na Everest Re, de SU$ 1,2 bilhão.

A resseguradora Validus anunciou ter sofrido perdas de US$ 378,9 milhões com as catástrofes do terceiro trimestre, e a Scor, de US$ 504,7 milhões.

Já a Universal, que é focada no mercado residencial da Flórida, anunciou perdas entre US$ 350 milhões e US$ 450 milhões devidas à passagem do Irma pelo estado americano.