SINAL DE ALERTA

Turbulência de 2016 impõe desigualdade à agenda de Davos

Relatório de riscos do Fórum Econômico Mundial ressalta a necessidade de ‘reformar a economia de mercado’ para reverer instabilidade

12/01/2017 – 12:00
Atualizado em 09/02/2017 – 07:28
Slide mostrado durante apresentação do relatório, em Londres. (Foto: Reprodução)

Slide mostrado durante apresentação do relatório, em Londres. (Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

Segundo o Fórum Econômico Mundial, o aumento da desigualdade é o mais importante fator por trás do incremento do risco global, tanto para as sociedades como para as empresas.

As crescentes diferenças entre os “vencedores” e os “perdedores” da globalização constituem, por exemplo, um dos principais fatores detrás da polarização política que se nota hoje em dia nos países desenvolvidos, alerta a entidade no relatório global de riscos publicado às vésperas de seu encontro anual em Davos, na Suíça.

Essa polarização foi ilustrada recentemente pela vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais americanas e o triunfo dos defensores da saída do Reino Unido da União Europeia durante um referendo realizado em junho passado e corre o risco de se repetir em países como a França, a Alemanha e a Itália, onde movimentos extremistas, tanto de esquerda quanto de direita, estão ganhando popularidade entre os eleitores.

Não que seja preciso buscar lá fora exemplos de polarização política, ou dos efeitos da desigualdade sobre a harmonia social. De certa maneira, vários dos problemas que os plutocratas mundiais vão discutir em Davos neste ano já vêm se manifestando no Brasil por muito tempo.

Cinco fatores

O relatório foi elaborado com o apoio da corretora Marsh e da seguradora Zurich.

De acordo com os organizadores do Fórum de Davos, os cinco principais fatores que estão determinando o cenário de riscos global são:

– Crescente desigualdade e estagnação do crescimento da economia;
– Mudanças climáticas;
– Polarização crescente da sociedade;
– Aumento da dependência cibernética;
– Envelhecimento da população.

Vacinada pelos extraordinários acontecimentos de 2016, a elite econômica global reunida na Suíça vai ter que discutir este tipo de tema, ao invés de celebrar os benefícios da globalização e da abertura econômica, que costumava ser a tônica do evento em tempos mais tranquilos.

“Vivemos tempos agitados em que o progresso tecnológico também cria desafios”, disse Cecilia Reyes, CRO da Zurich, durante a apresentação do relatório, em Londres. “Os governos já não podem fornecer níveis históricos de proteção social, e uma narrativa contrária ao establishment ganhou força, com novos líderes políticos culpando a globalização pelos desafios (enfrentados pelas) sociedades, criando um círculo vicioso em que baixo crescimento econômico apenas amplifica a desigualdade.”

Reforma do capitalismo

Observando que sociedades estão cada vez mais polarizadas devido aos efeitos da globalização, o fórum chega a declarar que “a reforma do capitalismo de mercado também deve ser acrescentada à agenda” da elite econômica mundial.

Os efeitos de tentar varrer este problema para debaixo do tapete podem ser bastante graves. Um dos sintomas do aumento da desigualdade tem sido um crescente desapreço à democracia, nota o relatório. O Brasil é citado como um dos países onde este risco de desencanto democrático tem se manifestado recentemente.

A entidade insta as empresas a se engajar na defesa da democracia e da liberdade de expressão e dos movimentos sociais, que estão sob ameaça cada vez maior de repressão por parte de governos e de forças de cunho autoritário no interior das sociedades.

Entre as receitas genéricas para reverter esta situação, o relatório recomenda “fomentar uma maior solidariedade e visão de longo prazo para o capitalismo de mercado”. Poucas vezes as montanhas nevadas de Davos terão ouvido menção a este tipo de coisa.

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